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Não sei

Hoje eu não sei. Sabe aqueles dias que você não sabe? Pois é… Hoje eu não sei.

Não sei se quero ir almoçar no lugar de sempre ou nem comer nada e sentir meu estômago corroer lá pelas seis da tarde. Não sei se eu quero ver um filme, ler um livro, fazer faxina, visitar a minha irmã, caminhar sozinha e sem rumo, fazer contas no cartão de crédito, pintar as unhas, mexer no cabelo, tomar um porre de milk shake ou de café, ouvir a trilha de Amélie Poulain ou de 500 Dias com Ela ou de Forest Gump. Não sei se eu quero ouvir música ou voltar a aprender a tocar violão. Não sei se eu quero ir ao jantar que tenho hoje, totalmente free, no bairro mais lindo de Curitiba quando é época de natal. Não sei se eu aguentaria, na verdade, chegar em Santa Felicidade em época de final de ano. Nem sei se quero.

Não sei se eu queria comprar um vestido, talvez um brinco novo ou um perfume. Talvez caminhar no Jardim Botânico ou no Tanguá. Talvez ir até o zoológico ver como são desengonçadas as girafas. Talvez ir ver aquele musical no Guairão. Mas não sei.

Não sei se puxo conversa com alguém no MSN. Eu odeio o MSN.

Não sei se não seria uma boa passar a tarde no Largo da Ordem, de repente sentar em algum boteco e ficar olhando as pessoas… Sempre tive tesão em fazer isso. Mas hoje, não sei.

Não sei se não chego em casa e durmo pra só acordar amanhã e ir trabalhar. Não sei se tenho sono suficiente… Não sei se não devo ligar para algum amigo que não vejo há bastante tempo… Não sei se não devo ler uma revista Piauí inteira, do começo ao fim, com uma caneca de café, deitada na cama, ouvindo Chico… Não sei…

Hoje eu não sei. Hoje eu simplesmente não sei o que fazer para suportar essa mudança repentina de fase e permanência de ares. As vezes parece que corpo e sentimento são dois estranhos ocupando o mesmo espaço. E aí a gente não sabe muito bem o que fazer, mesmo que cada dia seja um leque infinito de possibilidades.

(Daiana Geremias)

A minha menina

E como não sentir aquele aperto no peito de novo ao saber que você vai ficar longe? Aliás, eu deveria não sentir? Acho que eu deveria sentir, sim, bem desse jeito idiota que tem me feito quase chorar há mais ou menos uma semana, em determinados momentos do meu dia, quando me pego pensando em coisas que fizemos juntas…

E é igualzinho ao ano passado. É uma sensação de carência, de perda, de tristeza, mas também de alegria. Alegria porque você vai viajar, passar meses longe, fazendo o que gosta, tirando fotos lindas para depois eu morrer de inveja, fugindo desse calor, tomando porres de Starbucks, caminhando pela neve, mandando mensagens covardes diretamente de Vegas ou do Central Park. Mas, mais ainda do que isso, feliz por ter você. Feliz por ter uma pessoa assim tão incrível de quem só de pensar na falta que irá me fazer eu já sinta os olhos inundados e a garganta apertada…

Acho a maior estupidez humana essa coisa de só dar mais valor quando está sob a pressão do fim, seja lá o que o fim possa significar. Essa última semana que passamos juntas, por exemplo, foi incrível. Na sexta foram as aventuras ao som de Madonna, com as conversas e risos eternos e a aula no sábado de manhã… No sábado à noite teve o show do Zeca Baleiro, que te obriguei a ir e você odiou. Mas riu comigo, mesmo com o seu típico mau humor de quando não gosta de alguma coisa…

Ontem a tarde das meninas pelo shopping, depois o encontro com o seu primo, que teimo em odiar, mesmo sabendo que gosto dele e gosto mais ainda por dever a ele o fato de conhecer você…

Hoje você não quis sair para almoçar. E eu levei o almoço. Depois ficamos rindo com os outros que se achegaram, com a pizza que pedimos quando a noite começou juntamente do 7º episódio da 4º temporada do seriado mais babaca do mundo que nós amamos. E agora, por último, fui com você e seu irmão até a rodoviária porque você vai passar essa semana com seus pais, na sua cidade.

E domingo você vai. Domingo você vai para Califórnia. E eu fico. Sem os almoços de todo dia, sem a companhia para a série, para os shows quando eu ganhar ingressos, para as idas ao shopping, para as noites de sexta, para as tardes de domingo, para os telefonemas de todos os dias, para a jukebox no Parceria, para jogar fodinha, para o war que nunca ganho, para a xiboca que nunca tomo, para as conversas que sempre duram… Para as crises de riso, como aquela de ontem, que foi uma das melhores da minha vida…

E foi exatamente assim o ano passado.

Você ainda nem foi, mas já sinto a sua falta, amiga. Você nem faz ideia, aliás, do tamanho que é essa falta. Obrigada por me fazer sentir esse tipo de coisa. Obrigada por fazer parte da minha bagagem. Você é foda, Ana Carolina. E eu te amo.

Ana...

(Daiana Geremias)

Adeus, sombrinha!

Acordei como acordo geralmente: protelando a missão de levantar da cama. Mas, depois dos seis toques do despertador (sim, são seis), eu abro, finalmente, meus olhos, dou uma olhadinha pela janela e levanto. Já que não tem jeito, levanto. Mas hoje foi diferente porque olhei para o céu e percebi uma coisa nublada, mas tão nublada que meu humor foi pras nuvens (no bom sentido, adoro dias nublados).

Debrucei-me sobre a janela, pra dar aquela conferida na roupa do povo a caminhar pela Mariano Torres, lá embaixo. Confesso que perdi bons minutos naquela missão, mas é que me delicio com a interpretação que o curitibano faz de um dia nublado. Tinha gente de cachecol. Juro. Por um momento me senti em julho… Mas tentei não confiar nessa coisa de nublado pela manhã, sabe? Isso é armadilha pra gente sair que nem um babaca de casa e voltar mais babaca ainda, segurando roupas.

Resolvi tomar meu banho. Você só sabe quando alguém realmente mexeu na temperatura do mundo na hora do banho. Sim, porque todos os dias e você lá na ducha modo verão, tendendo ao gelado, certo? Se toma banho morno, sai suando do banheiro. Se toma banho quente, é retardado. Liguei o chuveiro no modo verão de sempre e tal. Opa. Deu frio. O nublado não era um falso nublado. Mudei a temperatura para morno e ficou bom. Terminei o banho e não estava suando. Sensacional! Deus existe!

Já coloquei uma blusinha dessas de meia estação. Peguei uma sombrinha e saí de casa, toda malandra. Na rua as pessoas sérias, andando meio rápido, tremendo um pouco. Encontrei uma senhora passeando com um cachorro. Ela vestia um sobretudo. Achei maravilhoso.

Entrei no tubo. Todos os dias converso com o mesmo trocador, o que trabalha especificamente naquele tubo. Não sei seu nome, nem nada a respeito. Sei que é baixinho, barrigudinho, aparenta ter seus cinquenta anos, é simpático e, como todas as pessoas de quem a gente sabe apenas essas informações e com quem se convive em espaços pequenos de tempo, mas religiosamente, o assunto que mais rende é a temperatura do dia, lógico. Hoje não foi diferente, ficamos ali falando sobre o clima, o tempo, a temperatura, o vento, a gripe e tudo e tal. Chegou o ônibus, bom trabalho para o senhor. Para você também, moça.

Assim que o ônibus fechou suas portas, começou a chuva. Na verdade, uma chuva fina. Logo cheguei ao meu destino, tirei minha sombrinha da bolsa, passei pela catraca do tubo, desci as escadinhas e fui, triunfal, armar minha sombrinha. A coitada, verde com suas bolinhas, resolveu fazer protesto. Um protesto mudo e cruel, diga-se de passagem. Um protesto podre. Assim que apertei aquele botão mágico que, nos bons tempos, com uma agilidade master abria o cabo e armava a dita cuja, percebi que aqueles ferrinhos, do lado de dentro, estavam todos enferrujados, quebrados e que a velocidade, que muitas vezes já me assustou e orgulhou, nem existia mais: foi tudo muito slow, na verdade. Parecia que, quando apertei aquele botão, ela quis me fazer passar vergonha mesmo. E, óbvio, tomar um banho.

Por alguns segundos, aqueles nos quais a gente tenta, não sei bem por qual motivo, negar a situação, busquei montar a sombrinha. Nunca fui boa em gambiarras. Nunca. Não seria hoje, a caminho do trabalho e no meio da chuva, que eu me descobriria autodidata. Aí parei, com aqueles pingos gelados caindo na minha testa, nos meus óculos (quem usa óculos detesta tomar chuva e detesta também tirar os óculos por causa da chuva, principalmente quando a cegueira é forte) e na roupa sequinha que vesti depois do banho, olhei de novo para aquela sombrinha e vi um cestinho de lixo em minha frente. Desarmei a dita cuja (até para isso estava desengonçada), dei um tapinha, como quem encontra um amigo com quem se está bravo e não quer trocar uma única palavra, passei aquela fitinha em volta dela e mirei na boca do lixo. Morri de dó. Não pela sombrinha, mas pelas lembranças.

Não olhei para trás e continuei andando. O céu das sombrinhas deve ter me jogado uma praga e a chuva engrossou. Ótimo. Comecei a lembrar que aquele pano impermeável verde com bolinhas e esqueleto de metal (ou do que quer que seja aquele ferrinho) já esteve comigo em lugares tão legais e já me salvou de poucas e boas. Em Paraty, estivemos no boteco ao lado de fora, na noite que chovia e todo mundo armou as sombrinhas. Nesse dia, estavam na mesa ao lado a escritora irlandesa Anne Enright, tomando sua cachaça juntamente com Arnaldo Bloch e o curitibano Cristovão Tezza…

Em São Paulo, recentemente, a sombrinha me levou pela Paulista inteira…

E eu lembro do dia em que eu a comprei, com a minha mãe, lá em Ponta Grossa, minha terrinha.

E hoje a deixei uma lixeira. Com dó e piedade. Mas deixei.

O dia continua nublado, a chuva continua caindo. É provável que eu tome um puta banho de chuva na volta para casa. Acredito nisso piamente depois do assassinato da sombrinha. Mas, às vezes, como tudo na vida, é preciso assumir riscos e não ter medo de chuva. Eu sempre tive.

E sempre tive dó de jogar fora uma sombrinha, eu achava que era melhor remendar aqui, costurar ali… Pode até adiantar… Mas quando vem uma tempestade o banho que a gente toma é bem pior.

Hoje eu estou pronta. Pronta pra tomar um banho de chuva ou de garoa. Talvez eu compre uma sombrinha nova no Muller, talvez tenham aqueles camelôs vendendo sombrinhas em frente à Prefeitura, aqui na esquina, talvez o tempo vire e faça sol ou talvez, saindo do trabalho, eu ganhe carona pra casa…

A gente nunca sabe…

Adeus, sombrinha! E obrigada por tudo. Foi ótimo enquanto durou.

(Daiana Geremias)

O blog

Criei este blog em junho, portanto o pobrezinho é um bebê de colo ainda, com seus cinco meses. Não é meu primeiro blog. Acho que me interessei por essa coisa quando comecei a ler o Blônicas (aliás, que nome genial). Por causa das leituras do Blônicas, isso há mais de quatro anos, eu acho, criei meu primeiro blog, que era horrível. Primeiro que o endereço tinha algo a ver com meu nome (Narciso explica), depois o layout era péssimo. Péssimo. Todos os dias eu colocava um texto com uma fonte em cor diferente, algo tipo azul, fúcsia (amo a cor fúcsia), vermelho ou verde. Isso tudo num fundo cinza. CINZA. Como se não bastasse, eu colocava bichinhos pulando e coisas afins. Era uma catástrofe. E os textos… Bom, os textos eram incríveis: todos revolucionários, geralmente fazendo alguma referência à minha banda favorita: Legião Urbana.

Depois, perdi a senha, nunca mais lembrei e criei outro blog, parecidíssimo com o primeiro.

E esse foi morrendo, à medida que fui mudando de pensamentos e, depois, de cidade também (como se blog tivesse endereço físico, né? “Não, não, agora vou para Curitiba, preciso de outro blog”)… O fato é que, quando vim morar aqui, a onda do momento era o fotolog. Blog era coisa do passado. Então eu tinha a minha página de fotos, colocava meus textos e pronto. Meu fotolog hoje? Existe, ainda. Está meio morto, coitado… Mas vive, meio que em latência… Tenho dó de deletar, porque é uma vida ali, muitas vezes já me vi olhando fotografias antigas e tendo crises de riso… E de choro.

O Universo Para Lego surgiu porque eu tive vontade, um dia. Eu adoro escrever. E escrevo sobre o que me dá na telha. Escrever, pra mim, muitas vezes, é como pensar. E eu tenho observado uma coisa que não ocorria nos meus blogs de quatro anos atrás: As pessoas me cobram. Não que eu tenha importância, ou que eu seja alguém foda e tal… Na verdade, eu nem sei se quero isso. Mas as pessoas me cobram e falam “eu leio o seu blog”. Essa frase, aliás, é uma frase que tenho ouvido muito ultimamente. Não posso dizer que não fico feliz. Fico, sim, e como fico.

A média de comentários aqui é relativamente baixa, mas eu fico bastante satisfeita. Mesmo. A média de visitas é, geralmente, 200 por semana. Em grandes picos, chega a 350…

Esses dias um amigo meu comentou sobre um texto publicado em uma categoria “conto”. Aí ele disse, pra mim, não no blog, que ele não entendeu como eu fui falar aquilo… “Daia, você foi muito categórica. Se alguém está chorando não significa que é porque uma pessoa morreu”.

E assim por diante… Quando eu escrevo em “crônica”. É porque aconteceu. Talvez não seja realmente uma crônica, no estilo estudado pelos padrões jornalísticos, mas é o meu jeito de contar e de escrever uma crônica. Se eu escrevo em “conto” é porque, definitivamente, não aconteceu. É só uma história.

Sei que acho interessante essa coisa toda. Eu escrevo, em primeiro lugar, porque é o que eu mais gosto de fazer. Fico realmente feliz em saber que existem pessoas que acompanham o que eu gosto de fazer. Fico feliz quando visitam, quando comentam, quando entendem e, inclusive, quando não entendem merda alguma do que eu quis dizer. No fundo isso me dá uma sensação estranha da responsabilidade do que realmente estou fazendo ou tentando.

E é sempre bom ouvir a frase que é uma das que mais tenho ouvido: “eu leio o seu blog”. Espero que continue assim. Voltem sempre, obrigada pela visita, sintam-se à vontade!

(Daiana Geremias)

Alta

Como assim, alta? Não é bem uma alta… Mas volte só em fevereiro, pra gente ver como estão as coisas…

Juro que me senti estranha.

Num dia, as minhas caronas de segunda-feira acabam, noutro suspendem as minhas idas ao divã.

Quer dizer que estou boa, sou normal, sou uma qualquer, uma dessas pessoas que andam pela rua todas as manhãs a caminho do trabalho? Ah, não, doutor, pensando bem, ultimamente eu tenho sentido… Deixe-me ver… Eu tenho sentido umas coisas… Não sei bem explicar. Esses dias mesmo, olhe que absurdo, eu conversava com um amigo e enfiei o meu celular na boca.

Uhum…

E teve outro dia também… Teve outro dia que foi pior… Saí do trabalho e vim a pé pra casa cantando ilariê. Acho que isso o senhor devia anotar, igual fazia das outras vezes…

Uhum…

Ah! Lembrei! Lembrei! Eu não consegui, ainda, escrever aquele livro. Lembra? Eu falei que queria escrever um livro… Isso foi em outubro de 2008… E até agora não escrevi… Qualquer escritor chinfrim escreveria… E eu não dei conta. Acho que é o estresse. Às vezes eu sinto umas palpitações também… A minha família tem histórico de pressão alta. Não de depressão, mas de pressão, assim separado. Se bem que depressão sempre me dá às sextas, quando fico em casa ou quando saio.

Uhum…

Dá pra voltar mês que vem, então?

Não.

Mas por quê? Tá tudo tão ruim, eu estou até suando… Tudo bem que faz calor e eu resolvi vestir preto hoje e vir a pé até aqui… Mas… E tem aquele problema também com a minha mãe… Sinto tanta falta dela… Sim, eu falo com ela todos os dias, sim… Sim, as nossas conversas melhoraram bastante e, de fato, não tenho reclamação alguma da minha mãe… Mas, deixe-me ver… Eu sou gorda. Isso é problema. Ninguém quer ser gorda, doutor. Ou não existiriam revistas especializadas em dietas. Sim, eu sei, eu sei que eu assumi o meu corpo, que tenho tentado melhorar minha dieta, que, inclusive, passei a me achar bonita de uns tempos pra cá… Mas e aquela história do celular na boca? Aquilo não é problema mesmo? É… De vez em quando eu faço graça mesmo…

Fevereiro? Tudo bem… Fevereiro…

Não! Eu adoro o meu trabalho…

Não, nunca mais tive vontade de jogar o lap pela janela. Nem de atravessar a rua com os olhos fechados…

Alta mesmo? Ok… Ok.

É… Hoje não usei seus lencinhos… Ficaram ali, intocáveis.

Obrigada. Pro senhor também, boas festas. Pode deixar, qualquer coisa, eu ligo. E, se eu jogar o lap, mando a conta.

Desci as escadas do consultório, como já fiz tantas vezes e em tantas circunstâncias. Em muitos casos, saí com lenços de papel na mão, enxugando as lágrimas e limpando o ranho (não existe palavra mais bonita para ranho, perdoem-me).

Voltei para casa caminhando de maneira diferente, não queria ser igual àquelas pessoas todas… E, para garantir, dei uma passadinha no shopping e usei o cartão de crédito. Gastos excessivos são motivos ótimos para consultas psiquiátricas.

(Daiana Geremias)

E o futuro é uma astronave

De repente me dá um aperto no peito, uma angústia, um não sei, um espanto, uma saudade, uma coisa estranha. De repente eu vejo a rotina virando sua página, quase ficando acomodada ao passado. De repente percebo que aquelas caronas de toda segunda-feira já acabaram e as provas, também. Não terei mais a angústia dos novos professores no primeiro dia de aula nem das aulas enviadas por e-mail nem dos alunos novos chegando, nem da hora do intervalo, nem da fila do xerox.

Como diria meu poetinha: de repente, não mais que de repente.

Na sexta-feira foi uma crítica e hoje foi outra, ambas por professores incríveis dos quais eu sei que vou me lembrar pelo resto da vida, assim como me lembro da tia Rita, da tia Cláudia, da professora Vera, da Rita de Cássia, da Márcia Lopes, da Ana Valéria, da Neci, do Celso, do Almir, do Rony, do Anderson Gomes, do Chyco, da Pilar, da Anna Simas, do Márcio, do Edson João, do Edson Fofinho, da Márcia, da Aline, do Tomás e, claro, do Israel, de quem levei o puxão de orelha hoje…

E o motivo foi o mesmo…

Foi o mesmo puxão de orelha que já levei da minha mãe, da Paty, da Cris… Das pessoas que gostam de mim…

E no caminho, na última carona de segunda-feira, com o Israel, tocou Aquarela. Desci do carro, como fiz por várias vezes e vim cantando a música que tanto gosto… Já se acabaram as aulas… Sinto uma angústia estranha. Sempre esperei por esse momento, acreditando que sentiria liberdade, felicidade, não sei. Mas sinto uma espécie de nostalgia antecipada… E medo, também, do que o futuro, ali logo em frente, a esperar pela gente, reserva…

Só sei que, como diria a música: o futuro é uma astronave que tentamos pilotar…

Espero que eu dê conta. Por enquanto, tive ótimos co-pilotos.

(Daiana Geremias)

A crítica e o elogio

Ele me disse sobre a juventude. Não é mais como no meu tempo. Antigamente, se você percebia que era bom, se esforçava. Hoje, não. Se você vê que é bom, fica acomodado. Tem que ser menos preguiçosa, menina. Se Deus lhe deu um campo fértil e você joga apenas uma semente, é desperdício… Precisa jogar várias sementinhas…

E ele falou em bíblia também. Citou algo que me pareceu uma parábola, não sei, nunca fui boa nisso de bíblia, mas acho que era parábola. Dizia sobre os homens que recebiam moedas, aquele que recebeu uma moeda e, ao final, voltou com uma moeda, levou bronca. Mas por que a bronca? Porque você precisa multiplicar a moeda. Se a recebeu e não fez nada com ela, não adianta…

Entende, menina? Entende o que eu digo? Entendo…

Essa juventude de hoje me deixa triste…

E eu com a cabeça baixa, a ouvir o sermão…

Promete pra mim que vai jogar mais sementinhas nesse teu campo? Prometo.

Desculpa se o que falo te desanima, mas é que, às vezes, a gente precisa dar bronca, sabe, precisa falar…

Tudo bem… Eu agradeço os conselhos e agradeço, inclusive, o puxão de orelha.

E foi caminhando comigo, até a saída da faculdade, o professor que, posso dizer, é um dos melhores que tive. Melhor por ensinar coisas em sala de aula, nos corredores, na escada e pra vida.

A minha irmã mais velha, a Paty, uma vez, há muito tempo, disse, quando ainda fazia faculdade, uma frase que ouviu na sala de aula: “A gente cresce na direção em que é elogiado”. Se não me engano era uma aula de uma das professoras que ela mais amava, a Moema. Eu nem conheci a Moema, conheci apenas de tanto que a Paty falava… E fiquei com aquela frase na cabeça… De fato. A gente cresce na direção em que é elogiado. E é preciso entender que críticas também são belas formas de elogio… Aliás, eu sempre duvido de quem sempre e somente elogia.

Obrigada, Tomás.

(Daiana Geremias)

Querido Mario Prático (versão dois)

Na madrugada desta segunda-feira para terça, caindo de sono, resolvi escrever sobre a sensação de conhecer Mario Prata e realizar um sonho antigo. Escrevi e postei, como vocês podem ler, se quiserem, no post anterior. Hoje, pela manhã, cheguei ao trabalho e vi que havia um comentário. Mac Prata. Mario Alberto Campos (de Morais) Prata. Tremi, gelei, pensei em gritar, sair pulando e era isso que eu faria se não pudesse perder o meu emprego com tal atitude (em alguns lugares dão valor praquilo que chamam de sanidade mental, sabem?).

Acontece que, às vezes, a felicidade nem precisa ser gritada. Fiquei ali, sorrindo, relendo aquelas palavras até decorá-las.

Engraçado é que no dia 27 de fevereiro de 2008 mandei um e-mail ao Prata, e-mail que resolvi reler agora e me causou arrepios. O e-mail, aliás, ele respondeu, com toda a sua simpatia…

Vou colocá-los aqui: e-mail e resposta. Para que talvez vocês possam sentir um pouco do que sinto nesse exato momento.

“Querido Mario Prático!

Não sei ainda se enviarei esse e-mail a você.

Apenas senti vontade de escrever e, escrevendo, imaginar que você leria.

Não nos conhecemos. Infelizmente.

Mas eu o conheço.

As pessoas acham engraçado quando me perguntam sobre um lugar que eu gostaria de conhecer aqui mesmo no Brasil e eu respondo: Lins.

Lins?

Sim. Lins.

A cidade do Mario.

E eu realmente sonho em encontrá-lo, talvez em um café ou um boteco, não importa. Sentar e conversar e rir e ver se vestirá seu paletó azul comprado em Portugal.

Mas, digamos que você leia esse monte de besteiras. Ok.

Meu nome? Daiana Geremias. 20 anos. Solteira. Acadêmica do curso de Jornalismo, mas meio parecida com o Seu Mindinho: só em 2007, já trabalhei como garçonete, locutora de rádio, operadora de telemarketing e estagiária de uma assessoria de imprensa. Curitiboca (nascida na cidade de Ponta Grossa). Meia gordinha. Apaixonada por literatura e pela sua literatura em especial.

Já tenho algumas publicações que serviram para me animar e deixar minha mãe feliz.

Escrevo. Adoro.

E, de repente, meu querido, eu quero ser assim como você quando crescer.

Faço coisas (ins)piradas em você e na sua forma de conseguir escrever e emocionar e fazer rir e (me) chorar…

Li uma de suas crônicas hoje no ônibus e pensei em escrever essas mal traçadas linhas. Confesso que me sinto idiota, não por escrever, porque escrevo até pra gente morta (Renato Russo que o diga), mas porque vou expor algo que denota a meu nível de “sem noção”.

Eu quero conhecê-lo, Mario.

Quero te dar um beijo demorado no rosto.

Quero levar uma caneta e guardar, nem que seja em um papel de bala, um autógrafo, um rabisco, uma vírgula feita por você.

Gostaria de pedir conselhos ou dicas ou sei-lá-o-quê que me fizessem ganhar a vida fazendo o que mais amo nesse mundo: escrever.

O admiro por isso, meu querido Mario. Admiro muito.

E, na realidade, ficarei feliz com algum tipo de resposta além da típica “sua mensagem foi enviada com sucesso!”.

Ah, Mario Prata! Quero conhecê-lo. Nem que seja na versão bolsinha.

Grande abraço!

Daiana Geremias”

A resposta veio no dia 1º de março daquele 2008:

“’sua mensagem foi enviada com sucesso!’. (rindo)

daiana, seu mail me comoveu mesmo. você é um amor de pessoa. e ainda escreve. nunca pare. e leia, leia muito.

grande beijo

mario prata”

É… A vida vale a pena…

Obrigada, Mario.

Aquele abraço! E um milhão de beijos!

(Daiana Geremias)

P.S: Mario Prático, paletó azul, seu Mindinho, meia gordinha (e não meio, como seria, teorica e policamente correto), me chorar e versão bolsinha são termos de crônicas do Mario, para quem achou estranho ou ficou perdido… Não é passarinho, não…

P.S 2: Passarinho é… Bom, passarinho é outra história…

Próxima parada

A alça da mala emperrada. Na mala, tudo o que eu precisava, exceto os fones para eu ouvir música durante a viagem, a ficha de inscrição (aquela que pedem para você levar SEM FALTA ao local de prova) e caneta preta, para fazer a prova. De resto, todas as inutilidades possíveis: Uns 50 pares de brinco, caso eu adquirisse um transtorno obsessivo compulsivo na modalidade troca de brinco; roupas para ficar uma semana ou duas (no máximo um mês); calcinhas e sutiãs para uns 20 banhos (a gente nunca sabe quando vai querer tomar um banho); lenços de colocar no pescoço (porque eu acho bonito, embora não use mais com esse calor desgraçado); remédios para todos os tipos de dor, doença, sintoma, queda de cabelo… E por aí vai. Só esqueci de alguns detalhes essenciais. Tou quase boa nessa coisa de arrumar mala.

O Gustavo Borges, aquele nadador, chegou no aeroporto e sentou na minha frente. Ele falava com alguém pelo celular. Eu demorei uns 30 segundos para lembrar quem era ele, mas sabia que a cara não era estranha. Ao meu lado tinha um casal. Deviam ter seus 160 anos, se somados. Cada um com 80, ou ela com 70 e ele com 90. Não sei… Mas olhando os dois e fazendo uma média: 160 anos. Eram incríveis, rabugentos, reclamões e engraçados, como convém a todo mundo rabugento e reclamão. Eles não entendiam o que a moça dizia, não conseguiam ler os avisos de embarque naquelas telas da LG nem se acertaram com seus próprios bilhetes. Você dá uma olhada aqui para mim, menina? Não sei qual é o meu avião… Claro… Olha, o da senhora é o mesmo que o meu, 1315. Então nós dois vamos ficar de olho em você… Tudo bem…

E ficaram, mesmo.

Eu estava folheando uma revista que ganhei, uma dessas vagabundas sobre vida de gente famosa e de gente quase famosa (os famosos saem com cara de bravos nas fotos tiradas por paparazzis, os quase famosos se mostram, esbanjam sorrisos e simpatia, encolhem a barriga, erguem a saia, retocam o gloss; reparem). Esse Ronaldinho… O Boris é corinthiano, ta verde com as cagadas que esse tal de fenômeno anda fazendo. Olhei para o seu Boris. Estava corado, pele clara, bochechas rosadas, olhando para frente, não parecia verde. Talvez ela o tivesse confundido com o Hulk.

A viagem durou 30 minutos. A gente perde mais tempo mesmo é com a enrolação de sai, não sai. E sempre tem um pamonha que consegue chegar atrasado, para ter o nome chamado bem alto “Senhor Armando Pinheiro de Jesus, comparecer ao portão 25 para embarque imediato para seu voo com destino a Natal”.

Nada como ter pessoas nos esperando no aeroporto da vida. Ou no de Congonhas. Ainda mais quando são pessoas de quem você sente saudade. Aquele abraço na área de desembarque é sempre gostoso.

Tive que vir morar em Curitiba para descobrir o que era cidade grande. Cheguei em São Paulo e percebi que estava enganada nos últimos quatro anos.

Sai do aeroporto, entra no ônibus, sai do ônibus, deixa a mala no guarda-volumes da rodoviária, almoça, entra no metrô, muda de metrô, sai do metrô, entra em outro ônibus e vai embora toda a vida, como diria o povo de Santa Catarina.

É que eu queria ver o Mario. Que Mario? Não, não o que traçou todo mundo atrás do armário. Mas aquele que me fez gostar de uma das paixões da minha vida: A crônica.

Mario Prata, jornalista e escritor, estaria, naquela sexta-feira, na Livraria da Vila, na Vila Madalena, em São Paulo. Óbvio que eu nem fazia ideia de onde era a Vila Madalena, mas queria ir. Ciça e Gil, minhas iluminadas guias na terra da garoa, toparam o desafio. Porque foi um desafio.

O lugar era longe (redundante dizer, aliás, que algum lugar é longe em São Paulo. Sempre será longe.), fazia calor, descemos antes, fomos andando e, umas três quadras antes de chegarmos ao destino, um pingo de chuva caiu em minha testa anunciando uma tempestade. Ficamos cerca de meia hora esperando São Pedro recuperar o bom humor sob um toldo de um barzinho. Depois resolvemos sair, ainda quando caia a chuva.

Chegamos molhadas à livraria e com antecedência de uma hora… Deu tempo, portanto, de ler, comprar livros (eu comprei um do Mario Prata – cartão de crédito é para essas horas), tomar uma água e comer alguma coisa…

A luz acabou. Olha, meninas, se o Mario Prata não vier, eu me mato… Acho que vou ali, dar uma olhada nesses livros infantis, ver qual é a desse “Onde Vivem os Monstros”…

O tempo é uma coisa que sacaneia a gente. Deus, em momentos de tédio, deve interromper a passagem de areia lá na sua ampulheta, só pra ver a gente se ferrando em momentos de longas esperas, como o daquela sexta-feira. Depois, para compensar, ele passa rápido e essa passagem acelerada coincide com os momentos bons. Einstein observou isso, mas quis relatar de outra maneira e escreveu uma tal de Teoria da Relatividade… Sabem qual, né?

Nada do Mario Prata chegar nem da luz voltar. Estávamos naquela livraria há meia hora, mas parecia que eu tinha entrado ali em julho.

Resolveram mudar o local das mesas de debate, para ficar tudo mais iluminado. Fiquei por perto, para garantir vaga. Quando liberaram a boiada, que correu para disputar capim no pasto, corri e consegui uma boa cadeira, juntamente das amigas Ciça e Gil.

A primeira coisa que vi, logicamente, foi o rosto, entrando, devagar. Os cabelos grisalhos, uma camiseta branca, bermuda, idem. Usava óculos. As cadeiras foram postas num nicho que ficava em um piso inferior ao da entrada. Ele chegou, apoiou-se no parapeito, olhou para baixo e foi conversar com uma pessoa que não sei quem é. Logo veio para seu lugar à sombra. Nos pés, uma sandália havaianas, também branca, daquelas com a bandeirinha do Brasil dos lados…

Sentou-se ao lado de Matthew Shirts e Reinaldo Moraes para conversarem sob os comandos do genial Xico Sá. Mas não teve jeito, Prata foi ouro, ficou em primeiro. Foi o rei da mesa, um rei, aliás, bastante caricato e diferente ali com suas havaianas, suas palavras (deliciosamente) sujas e seus súditos rindo de cada causo (sim, causo) contado. E eram, de fato, muitos súditos. A plateia era formada por pessoas nas cadeiras, assim como eu, que tive sorte e garra para conseguir aquele lugarzinho cobiçado, mas também por gente sentada ao chão ou nas escadas mesmo e até no segundo andar, vendo a coisa por cima da carne molhada (pela chuva).

E o Prata falava. Eu queria poder ter filmado aquilo tudo. Daria, certamente, mais um livro.

Depois de mais ou menos 90 minutos de prosa, riso, palavrões, piadas, causos e aulas de como ser um boêmio escritor de crônica, Xico Sá anunciou o espaço para as perguntas. Nesse momento sempre sinto meu coração disparar e sei que devo ser a primeira. Devo e pronto porque senão nunca mais perguntarei e o arrependimento é coisa que mata e na minha mala, com remédios para azia, dor de cabeça, indigestão, zumbido no ouvido, manchas na unha e espinhas no nariz não havia remédio para arrependimento. Levantei o braço. A primeira pergunta era minha.

Mario, eu sou apaixonada por você, aprendi a gostar de crônicas lendo seus livros e estou aqui hoje só para te ver.

Não é, nunca foi e, acredito, nunca será a melhor forma de começar uma pergunta ou de fazer uma apresentação. Muito menos depois de alguns anos estudando sobre como fazer perguntas. Mas era o Mario Prata…

O Reinaldo e o Xico Sá ficaram revoltados “Então a gente não vale nada!”. E todo mundo riu. Pois é, mas eu vim pelo Mario mesmo…

Como, exatamente, foi a pergunta eu nem sei. Sei que perguntei, como macho. E ele respondeu, olhando para mim, daquele jeito bonito que as pessoas olham para as pessoas. Com os olhos. Na verdade, se fosse qualquer outra pessoa, seria apenas uma conversa… Mas o diferencial era justamente esse: Não era qualquer outra pessoa.

Depois, sentei ao lado dele, peguei autógrafo, tirei foto. Tudo como manda o manual da fã idiota do escritor favorito.

Saí da livraria sem me importar com a chuva que ainda caia. O caminho de volta foi longo e lindo. Eu olhava o livro a cada cinco minutos, para ter certeza de que o autógrafo estava mesmo lá, de que não havia se deteriorado.

No outro dia eu tinha uma prova, precisava acordar cedo, dormir cedo, descansar, tomar banho, comer, pensar…

Eu estava em São Paulo e tinha acabado de ver, conversar, ganhar autógrafo e tirar foto com Mario Prata. O que eu tinha que fazer, eu fiz, sim, por instinto… Porque o que eu realmente fiz, naquela sexta-feira, foi pensar em como a vida é engraçada. E em como ela vale a pena, mesmo quando se está em um metrô com uma mala pesada com a alça quebrada, os pés molhados, o estômago com fome, o cabelo bagunçado. Em cada estação as pessoas entravam e saiam. E eu ali ficava, sentada, segurando a minha mala, olhando pela janela e imaginando qual seria a próxima parada.

Mario Prata e eu, na Livraria da Vila

(Daiana Geremias)

A poesia poética

Hoje me lembrei de primeiro de julho. Primeiro de julho é uma das músicas que mais amo. Muita gente acha que é da Cássia Eller. Eu adoro Cássia Eller, mas nunca consigo pensar em alguma música de sua própria composição. As interpretações, como no caso de Primeiro de Julho, que é da Legião, são sempre lindas… Mas não me ocorre uma composição da Cássia. Não agora.

O primeiro de julho do qual lembrei hoje não foi a música. Falei sobre a música apenas porque lembrei da música quando disse que lembrei de primeiro de julho e, falando da música e de Cássia Eller e de interpretações e composições, chego, enfim, ao primeiro de julho do qual realmente quero falar: o primeiro de julho de 2009, o primeiro de julho data.

Em minhas mãos eu tinha uma taça vagabunda de plástico com champagne igualmente vagabundo. Ao meu lado um garoto de Poços de Caldas, Minas Gerais. Tínhamos acabado de nos conhecer. O chão que pisávamos era o de Paraty, no Rio de Janeiro e o banco no qual nos sentamos era qualquer, para ver Adriana Calcanhoto.

Sempre tive um problema sério com Adriana Calcanhoto. Seríssimo. Até hoje não sei se gosto dela ou não. Só sei que ela não devia sair cantando “Esquadros” por aí como se fosse normal, como se aquilo não mexesse com as pessoas…

E lá, com aquele mineiro meio tímido (que depois de algumas doses de cachaça soltava o verbo e o riso e algumas gírias engraçadas) e aquela cantora e compositora de músicas como “Esquadros”, que viria depois a cantar aquela música do Claudinho e Bochecha que nunca saberei o nome, V’Ambora, que quase sempre me faz ter vontade de chorar, Esquadros, logicamente, Eu Sei Que Vou te Amar, em homenagem ao poetinha e muitas outras, eu sentia coisas maravilhosas, que mandava freneticamente por mensagens para alguns amigos.

Antes de tudo isso, porém, virei aquela taça de uma vez só, assim que ela começou a recitar Poética, de Manuel Bandeira, o homenageado da Flip deste ano. Aquele sotaque carioca arranhava meus tímpanos “Estou farto do lirismo comedido/ do lirismo bem comportado”.

Esse poema tem poder sobre mim, desde a primeira vez que o li. E, naquele momento, ouvi-lo foi como fazer um test drive do paraíso. Acho que foi uma mistura de todas aquelas sensações e da música e do gosto daquele champagne barato e daquela cidade desconhecida e da sensação de estar sozinha ali, com um completo estranho que poderia ser um psicopata ou um chato, um maluco, mas que não era…

E, então… “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.

Poética, para mim, são os dois primeiros versos e esse último. Poética são todas os versos, sim, mas o ápice são esses.

Hoje eu acordei cedo, predestinada ao mau humor, deitei nos pés da cama, olhei pela janela e falei “merda”. Depois levantei, tomei um banho, coloquei uma música, para tocar em ordem aleatória. A primeira que veio foi “Ah, se eu fosse marinheiro…”, da Adriana Calcanhoto. Música, aliás, que nem sei o nome. Aí fiquei cantando e dançando. De repente, lembrei da leitura que ela fez de Poética, naquele primeiro de julho… E senti um pouco do que senti naquele dia: uma vontade incrível de ser feliz, pisar em terras desconhecidas, tomar champagne em taças de plástico se for preciso, conhecer pessoas de Minas, de São Paulo, do Rio, de Brasília, de Porto Alegre, do Mundo… E dispensar, definitivamente, tudo aquilo que não for libertação.

Show de Adriana Calcanhoto em Paraty - 1º de Julho de 2009

 

 

(Daiana Geremias)

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