A alça da mala emperrada. Na mala, tudo o que eu precisava, exceto os fones para eu ouvir música durante a viagem, a ficha de inscrição (aquela que pedem para você levar SEM FALTA ao local de prova) e caneta preta, para fazer a prova. De resto, todas as inutilidades possíveis: Uns 50 pares de brinco, caso eu adquirisse um transtorno obsessivo compulsivo na modalidade troca de brinco; roupas para ficar uma semana ou duas (no máximo um mês); calcinhas e sutiãs para uns 20 banhos (a gente nunca sabe quando vai querer tomar um banho); lenços de colocar no pescoço (porque eu acho bonito, embora não use mais com esse calor desgraçado); remédios para todos os tipos de dor, doença, sintoma, queda de cabelo… E por aí vai. Só esqueci de alguns detalhes essenciais. Tou quase boa nessa coisa de arrumar mala.
O Gustavo Borges, aquele nadador, chegou no aeroporto e sentou na minha frente. Ele falava com alguém pelo celular. Eu demorei uns 30 segundos para lembrar quem era ele, mas sabia que a cara não era estranha. Ao meu lado tinha um casal. Deviam ter seus 160 anos, se somados. Cada um com 80, ou ela com 70 e ele com 90. Não sei… Mas olhando os dois e fazendo uma média: 160 anos. Eram incríveis, rabugentos, reclamões e engraçados, como convém a todo mundo rabugento e reclamão. Eles não entendiam o que a moça dizia, não conseguiam ler os avisos de embarque naquelas telas da LG nem se acertaram com seus próprios bilhetes. Você dá uma olhada aqui para mim, menina? Não sei qual é o meu avião… Claro… Olha, o da senhora é o mesmo que o meu, 1315. Então nós dois vamos ficar de olho em você… Tudo bem…
E ficaram, mesmo.
Eu estava folheando uma revista que ganhei, uma dessas vagabundas sobre vida de gente famosa e de gente quase famosa (os famosos saem com cara de bravos nas fotos tiradas por paparazzis, os quase famosos se mostram, esbanjam sorrisos e simpatia, encolhem a barriga, erguem a saia, retocam o gloss; reparem). Esse Ronaldinho… O Boris é corinthiano, ta verde com as cagadas que esse tal de fenômeno anda fazendo. Olhei para o seu Boris. Estava corado, pele clara, bochechas rosadas, olhando para frente, não parecia verde. Talvez ela o tivesse confundido com o Hulk.
A viagem durou 30 minutos. A gente perde mais tempo mesmo é com a enrolação de sai, não sai. E sempre tem um pamonha que consegue chegar atrasado, para ter o nome chamado bem alto “Senhor Armando Pinheiro de Jesus, comparecer ao portão 25 para embarque imediato para seu voo com destino a Natal”.
Nada como ter pessoas nos esperando no aeroporto da vida. Ou no de Congonhas. Ainda mais quando são pessoas de quem você sente saudade. Aquele abraço na área de desembarque é sempre gostoso.
Tive que vir morar em Curitiba para descobrir o que era cidade grande. Cheguei em São Paulo e percebi que estava enganada nos últimos quatro anos.
Sai do aeroporto, entra no ônibus, sai do ônibus, deixa a mala no guarda-volumes da rodoviária, almoça, entra no metrô, muda de metrô, sai do metrô, entra em outro ônibus e vai embora toda a vida, como diria o povo de Santa Catarina.
É que eu queria ver o Mario. Que Mario? Não, não o que traçou todo mundo atrás do armário. Mas aquele que me fez gostar de uma das paixões da minha vida: A crônica.
Mario Prata, jornalista e escritor, estaria, naquela sexta-feira, na Livraria da Vila, na Vila Madalena, em São Paulo. Óbvio que eu nem fazia ideia de onde era a Vila Madalena, mas queria ir. Ciça e Gil, minhas iluminadas guias na terra da garoa, toparam o desafio. Porque foi um desafio.
O lugar era longe (redundante dizer, aliás, que algum lugar é longe em São Paulo. Sempre será longe.), fazia calor, descemos antes, fomos andando e, umas três quadras antes de chegarmos ao destino, um pingo de chuva caiu em minha testa anunciando uma tempestade. Ficamos cerca de meia hora esperando São Pedro recuperar o bom humor sob um toldo de um barzinho. Depois resolvemos sair, ainda quando caia a chuva.
Chegamos molhadas à livraria e com antecedência de uma hora… Deu tempo, portanto, de ler, comprar livros (eu comprei um do Mario Prata – cartão de crédito é para essas horas), tomar uma água e comer alguma coisa…
A luz acabou. Olha, meninas, se o Mario Prata não vier, eu me mato… Acho que vou ali, dar uma olhada nesses livros infantis, ver qual é a desse “Onde Vivem os Monstros”…
O tempo é uma coisa que sacaneia a gente. Deus, em momentos de tédio, deve interromper a passagem de areia lá na sua ampulheta, só pra ver a gente se ferrando em momentos de longas esperas, como o daquela sexta-feira. Depois, para compensar, ele passa rápido e essa passagem acelerada coincide com os momentos bons. Einstein observou isso, mas quis relatar de outra maneira e escreveu uma tal de Teoria da Relatividade… Sabem qual, né?
Nada do Mario Prata chegar nem da luz voltar. Estávamos naquela livraria há meia hora, mas parecia que eu tinha entrado ali em julho.
Resolveram mudar o local das mesas de debate, para ficar tudo mais iluminado. Fiquei por perto, para garantir vaga. Quando liberaram a boiada, que correu para disputar capim no pasto, corri e consegui uma boa cadeira, juntamente das amigas Ciça e Gil.
A primeira coisa que vi, logicamente, foi o rosto, entrando, devagar. Os cabelos grisalhos, uma camiseta branca, bermuda, idem. Usava óculos. As cadeiras foram postas num nicho que ficava em um piso inferior ao da entrada. Ele chegou, apoiou-se no parapeito, olhou para baixo e foi conversar com uma pessoa que não sei quem é. Logo veio para seu lugar à sombra. Nos pés, uma sandália havaianas, também branca, daquelas com a bandeirinha do Brasil dos lados…
Sentou-se ao lado de Matthew Shirts e Reinaldo Moraes para conversarem sob os comandos do genial Xico Sá. Mas não teve jeito, Prata foi ouro, ficou em primeiro. Foi o rei da mesa, um rei, aliás, bastante caricato e diferente ali com suas havaianas, suas palavras (deliciosamente) sujas e seus súditos rindo de cada causo (sim, causo) contado. E eram, de fato, muitos súditos. A plateia era formada por pessoas nas cadeiras, assim como eu, que tive sorte e garra para conseguir aquele lugarzinho cobiçado, mas também por gente sentada ao chão ou nas escadas mesmo e até no segundo andar, vendo a coisa por cima da carne molhada (pela chuva).
E o Prata falava. Eu queria poder ter filmado aquilo tudo. Daria, certamente, mais um livro.
Depois de mais ou menos 90 minutos de prosa, riso, palavrões, piadas, causos e aulas de como ser um boêmio escritor de crônica, Xico Sá anunciou o espaço para as perguntas. Nesse momento sempre sinto meu coração disparar e sei que devo ser a primeira. Devo e pronto porque senão nunca mais perguntarei e o arrependimento é coisa que mata e na minha mala, com remédios para azia, dor de cabeça, indigestão, zumbido no ouvido, manchas na unha e espinhas no nariz não havia remédio para arrependimento. Levantei o braço. A primeira pergunta era minha.
Mario, eu sou apaixonada por você, aprendi a gostar de crônicas lendo seus livros e estou aqui hoje só para te ver.
Não é, nunca foi e, acredito, nunca será a melhor forma de começar uma pergunta ou de fazer uma apresentação. Muito menos depois de alguns anos estudando sobre como fazer perguntas. Mas era o Mario Prata…
O Reinaldo e o Xico Sá ficaram revoltados “Então a gente não vale nada!”. E todo mundo riu. Pois é, mas eu vim pelo Mario mesmo…
Como, exatamente, foi a pergunta eu nem sei. Sei que perguntei, como macho. E ele respondeu, olhando para mim, daquele jeito bonito que as pessoas olham para as pessoas. Com os olhos. Na verdade, se fosse qualquer outra pessoa, seria apenas uma conversa… Mas o diferencial era justamente esse: Não era qualquer outra pessoa.
Depois, sentei ao lado dele, peguei autógrafo, tirei foto. Tudo como manda o manual da fã idiota do escritor favorito.
Saí da livraria sem me importar com a chuva que ainda caia. O caminho de volta foi longo e lindo. Eu olhava o livro a cada cinco minutos, para ter certeza de que o autógrafo estava mesmo lá, de que não havia se deteriorado.
No outro dia eu tinha uma prova, precisava acordar cedo, dormir cedo, descansar, tomar banho, comer, pensar…
Eu estava em São Paulo e tinha acabado de ver, conversar, ganhar autógrafo e tirar foto com Mario Prata. O que eu tinha que fazer, eu fiz, sim, por instinto… Porque o que eu realmente fiz, naquela sexta-feira, foi pensar em como a vida é engraçada. E em como ela vale a pena, mesmo quando se está em um metrô com uma mala pesada com a alça quebrada, os pés molhados, o estômago com fome, o cabelo bagunçado. Em cada estação as pessoas entravam e saiam. E eu ali ficava, sentada, segurando a minha mala, olhando pela janela e imaginando qual seria a próxima parada.

Mario Prata e eu, na Livraria da Vila
(Daiana Geremias)