Medito há mais de 20 anos e não sabia

Uma das coisas que mais amo no meu trabalho é que, volta e meia, escrevo a respeito de Psicologia, Medicina e Saúde de um modo geral, que são temas do meu extremo interesse – dou sempre cinco estrelinhas para os subtemas Neurociência e Nutrição.

Escrever a respeito desses assuntos significa ler sobre eles antes e, por consequência, aprender algumas coisas. Já perdi as contas de quantas vezes tive como tema de escrita a importância da meditação para a nossa sanidade mental e, bem, eu não consigo meditar. Ou achava que não conseguia – já explico.

Não foi apenas no trabalho que entendi a importância da meditação – não! Já me recomendaram a dita cuja quando busquei ajuda espiritual e também quando fiquei internada por causa do AVC que tive em março deste ano. Ri, confesso, na cara do neurologista quando ele me disse para meditar. Como se fosse fácil.

Fácil é perceber, conforme a idade avança e a cabeça acumula caraminholas, que, realmente, nosso corpo reflete com força aquilo que fazemos com ele e aquilo que está em nossa mente.

No meu caso, meus medos se manifestam de maneiras que julgo bastante deselegantes: insônia, dor de estômago e crises de pânico. A insônia me acompanha há alguns anos já, essa desgraçada, mas ela é o tipo de companhia que tanto odeio quanto amo, porque lá no fundo eu acho que dormir é meio que perder tempo. Sou o tipo de louca que acorda às seis no domingo e que levanta correndo para colocar roupas de molho e não perder o melhor horário de estendê-las e deixá-las no Sol – pois é.

A dor no estômago até que tem diminuído e só a senti das últimas vezes que tomei chimarrão – sacanagem isso aí. Agora as crises de pânico vieram depois do AVC e são as que eu mais odeio. Detesto. Quero que sumam.

É uma sensação horrível de que estou morrendo ou tendo outro AVC. Essa bosta desse AVC me dá um medo que até hoje ainda não sei descrever. Ontem falei sobre ele na hora do almoço e batata: pouco tempo depois estava agoniada, recorrendo ao Rivotril e querendo deitar em posição fetal em algum quarto escuro. Vou colocar o assunto AVC em uma gavetinha e deixar lá, sabe, escondido. Ok, eu tive, foi um saco, mas não quero mais relembrar do dia em detalhes.

O pânico é bizarro porque você sente do dedão do pé, passando pelo estômago, pelo coração, pela garganta e subindo até a cabeça. Aí o negócio é, além de andar com o Rivotril na bolsa, aprender a lidar com o dito cujo, e taí outra coisa legal que descobri no trabalho: respirar é um exercício poderoso. Esvaziar os pulmões completamente, aí respirar com calma até enchê-los de novo, segurar o ar ali um pouquinho e ir soltando é um negócio capaz de reverter a tal resposta inflamatória, que é o que acontece com nosso corpo quando entramos em pânico ou em estado de estresse profundo. Juro que funciona.

Adultecer é isso: você vai descobrindo que tem cada vez mais medos, que cada um deles vai ficando mais e mais à flor da pele. E aí o jeito é encontrar formas de aliviar essas sensações, essa insônia, essa úlcera.

Uma das coisas que mais me preocupa é dinheiro, e aí a minha mãe sempre me diz que não vale a pena se preocupar, que a gente sempre dá um jeito, que as coisas poderiam ser piores, que dinheiro é um troço sujo que não deveria roubar nosso sono. Adianta ela me dizer isso tudo? Desculpa, mãe, mas não.

Aí eu me preocupo com outras coisas, porque acho mesmo é que minha cabeça curte ficar preocupada. É a alimentação, é a roupa que eu quero que pegue Sol, são os amigos que eu não vejo há tempos, é a minha visão embaralhada, é aquele vestido caro que eu queria comprar, são as questões existenciais, amorosas, religiosas, litigiosas.

Eu deito para dormir, mas meu cérebro entende que, na verdade, eu quero refletir a fundo a respeito de cada um desses assuntos. E eu acabei de fazer 29 anos, poxa, não quero depender de Rivotril para conseguir apagar – embora precise confessar que, minha gente, Rivotril é um negócio fantástico.

Programo tudo minuciosamente. Da roupa que vou usar no dia seguinte ao horário de funcionamento do meu intestino – sim, eu é que mando. Calculo meus passos e raramente me atraso ou erro alguma coisa nesse sentido – a questão é: eu realmente preciso me preocupar com a porcaria da roupa todo sábado de manhã e todo domingo de manhã também? Nunca vou me dar o direito de dormir até às 10h, que seja, só por que quero lavar roupa cedinho, mesmo que a temperatura lá fora esteja congelante?

Aí as pessoas perguntam por que eu não volto para a cama. Porque não existe essa possibilidade. Uma vez acordada, jamais durmo novamente. JAMAIS. Então se eu acordo às 4h da madrugada, eu simplesmente não durmo de novo. Não existe aquela coisa de “ah, vou virar para o lado e dormir”. Não. Eu abro os olhos e já começo a pensar em quanto tempo tenho para tomar banho e fazer café e esquentar a água para colocar na térmica antes de enchê-la com o café. E penso naquele texto que eu li no dia anterior, e nos meus irmãos e sobrinhos e pai e mãe. E AINDA TEM GENTE QUE DIZ QUE EU SOU QUIETA. Do lado de fora, até pode ser, mas por dentro é sempre um turbilhão.

Como eu disse, uma das coisas que eu mais gosto no meu trabalho é a oportunidade de aprender e escrever a respeito dos meus assuntos favoritos. A um ano de chegar nos 30, fazer o que eu amo tem um gostinho sensacional em vários sentidos: a escrita, para mim, é a melhor forma de expressão, e tê-la como hobby e como ganha-pão é uma vitória pessoal que volta e meia me enche de alegria.

Quando eu era criança, aprender a escrever foi a melhor coisa que me aconteceu. Era um encanto gigante, cheio de mistério e magia. Minha mãe ia me mostrando novas palavras na rua a caminho da escola e eu dizia que queria ser escritora. Não sou. Não do jeito que eu imaginava, mas de certa forma eu consegui trazer a escrita para dentro da minha vida de uma forma absurda.

Na verdade, a escrita é a minha vida. É a forma como melhor me expresso e como ganho dinheiro. É um passatempo que não pretendo deixar de ter. É uma espécie de terapia, de refúgio, de meditação. E era aqui que eu queria chegar: de repente, meditar não é só fechar os olhos em posição de lótus e se focar na respiração. Meditar é colocar em prática aquilo que nos acalma, que nos faz bem. Meditar, para mim, é vomitar minhas abobrinhas através do teclado. Agora eu sei. E quando alguém me perguntar se medito, vou responder: todo santo dia, há vinte e tantos anos.

De repente 30

E lá vou eu em direção aos 30 anos que sempre quis fazer.

Quando era mais nova e me via querendo ser adulta de uma vez e dona do meu nariz, pensava nos 30 meio que como uma espécie de limite. Antes dos 30, pode tudo. Depois, também, mas aí você é oficialmente adulto.

Nova, eu me imaginava oficialmente adulta trabalhando como jornalista, casada, com filhos e uma casa com varanda, um vaso de flor em algum aparador e, quiçá, autora já do livro que quero escrever desde que aprendi a juntar letrinhas.

Casei, estou quase indo morar em uma casa que chamarei de minha, que vai ter varanda e flores no aparador. Sou jornalista e trabalho com internet, que não fazia parte dos meus planos juvenis. Ainda não tenho filhos, mas já tenho os nomes de alguns deles. Meu marido é o mesmo moço que me fez derreter de amores pela primeira vez na vida, quando eu ainda tinha 14 anos e não sabia de nada.

E, de repente, 30.

De repente eu me vejo sendo uma pessoa completamente diferente da menina que cresceu com medo e querendo fazer de tudo, inclusive o que poderia prejudicar a mim mesma, para agradar as pessoas ao meu redor. Hoje, não.

O marido que dorme comigo todas as noites é a pessoa mais linda, carinhosa e atenciosa do universo. Ele me conhece melhor do que qualquer outro ser humano e com ele eu sou quem eu realmente sou e sempre digo o que penso, sem medo de qualquer julgamento. Já sei que vou ouvir, por mais alguns anos, talvez, que me casei rápido demais, e cada vez que isso me é dito eu sorrio por dentro e cumprimento a mim mesma, por não viver com esse medo que todo mundo sempre tem do que pode dar errado.

Hoje não sou nem 10% da pessoa que era em 2011, quando fui morar na Irlanda e passei um ano curtindo a vida adoidado, rindo, me divertindo, conhecendo gente e tomando Guinness. Aprendi tanto e por alguns anos senti saudade e uma espécie de arrependimento por ter voltado. Hoje, não trocaria minha vida de agora por nada e não conseguiria viver na Irlanda da forma que vivi há seis anos – meu Deus, seis anos!

Eu emagreci, eu posei pro Jorge Bispo, eu tive um AVC e achei que poderia dar muita, muita merda com a minha saúde. Passei a vida inteira sentindo medos moderados e constantes, medo de perder pessoas, de não agradar, de ficar sem amigos, de ser diferente. Aí, no dia do AVC, eu descobri o que era medo de verdade, e foi esse medo que me mudou e que me fez aceitar um pedido de casamento e planejar ter filhos e escolher a decoração da casa e aprender a beber cachaça. O medo daquele dia em março de 2016 foi o que me acordou de verdade para a vida.

Tenho trabalhado muito e em vários sentidos. No profissional, no matrimonial, no sonhador, no familiar. O trabalho maior, no entanto, está totalmente focado em mim, porque é como os comissários avisam a gente antes da decolagem: em caso de despressurização, é preciso colocar a máscara primeiro em você mesmo antes de ajudar outra pessoa a colocar também.

Eu hoje me preocupo sempre com a minha máscara de ar, e depois com a máscara do meu marido, e dos meus pais e familiares. Tem que ser assim.

Quando me lembro do sofrimento do começo dos meus 20 anos e do quanto precisei lutar e chorar para construir laços que são, sim, muito importantes até hoje, tenho vontade de voltar e dizer para a menina que fui um dia que as coisas vão ser mais fáceis, que as prioridades todas mudarão, que os amigos verdadeiros serão sempre seus e que, na verdade, você precisa cuidar de você, do seu emocional e de todos os muros que existem dentro dessa sua cabeça bagunçada.

A terapia, que fiz durante um tempo e que logo quero voltar a fazer, foi também um dos fatos marcantes dos meus últimos anos, e se hoje tem gente que diz que sou carrancuda ou que nunca topo fazer nada, de novo eu vejo que estou no caminho certo. Quando todo mundo sorri demais para o que você faz é porque você está fazendo o que os outros esperam de você, e eu não gosto mais disso. É perigoso.

Não faço nada de errado, mas também não engulo sapos. A Daiana que me tornei aos 30 é uma pessoa que a Daiana de 15 olharia com espanto e com certa admiração.

Que as coisas continuem mudando. Hoje eu sou livre para me moldar às minhas próprias mudanças, para cuidar do meu nariz e para casar quando e com quem eu quiser e do jeito que eu quiser. Sou livre para comprar roupas, sapatos e para assistir Meu Malvado Favorito no cinema, ao lado do meu marido. Sou livre para decidir passar meu aniversário com ele e com a sua avó, que é também minha. Sou livre para querer ter filhos e uma casa do nosso jeitinho.

A vida é um rolo compressor e nos ensina coisas de um jeito nem sempre agradável. Minhas crenças estão fortes, aos 30, e eu finalmente consegui ser a pessoa que queria ser. Faltam os filhos e os livros, mas para isso ainda tenho tempo.

O Philipe, que eu mesma só fui conhecer bem depois de morarmos juntos e nos casarmos, é a pessoa que hoje eu defendo com unhas e dentes e que coloco em primeiro lugar na minha vida porque é isso que ele tem feito comigo também, há um bom tempo. Depois de tantos desamores e decepções, aprendi o que é reciprocidade.

Ninguém nunca me esperou, no retorno de uma viagem a trabalho, com a casa limpinha e com janta feita e um vinho bom em cima da mesa. Ninguém nunca cuidou de mim, depois de eu já ter saído da casa da minha mãe, com tanto carinho, com tanto cuidado e com tanta preocupação como ele o faz. Fiquei doente algumas vezes ao lado dele e foi ele que ficou comigo no hospital, segurando a minha mão e me olhando enquanto eu dormia.

Era esse tipo de amor que eu quis a vida inteira. De total liberdade, intimidade e dedicação. Somos intensos e vivemos um pelo outro. Aos 30 eu finalmente tenho comigo o que queria ter quando 30 anos completasse e isso não poderia me deixar mais feliz. Que venham quantos anos eu tiver que ter e que viver. Agora meus sonhos não são apenas meus e isso é muito mais bonito do que qualquer música de amor ou qualquer novela das seis. É mais bonito porque é meu e porque é de verdade.

Feliz ano novo para mim. Feliz ano novo para o Phi. Feliz ano novo para a gente.

phi

Os anos e eu

Às vezes eu odeio meus textos do blog. Parecem uma egotrip sem fim e, por algum motivo, a gente é ensinado desde sempre a não falar muito sobre si mesmo, nem para o bem, nem para o mal. Aí a gente cresce e tem que fazer terapia para aprender a discursar em primeira pessoa sem sentir culpa. Ah, seres humanos! Tão inocentes e imbecis de vez em quando…

O fato é que existe uma época do ano em que é permitido ter todas as egotrips desejadas. Chega dezembrão perto do Natal e batata: tá todo mundo falando sobre si mesmo e dizendo como cresceu, viveu e aprendeu no ano que passou. Então já que tenho meu aval sazonal para focar em mim e somente em mim, vou aproveitar.

Eu costumava curtir muito essa época do ano quando era criança e até pouco tempo atrás, na verdade. Fazia retrospectivas e listas de metas. Comprava roupas brancas para a meia-noite mais supervalorizada de todas e gastava o dinheiro que tinha para presentear minha família e alguns poucos amigos.

Aí o tempo passa e a gente vai criando uma certa casca cética da vida. A gente percebe que, no fundo, a porcaria da meia-noite não muda nada na prática e que Papai Noel é um personagem inventado que usa roupa vermelha por causa da Coca-Cola. Sabe?

Quando o ano vai acabando, gosto de rever minhas conquistas e meus tombos, realmente aprecio as comidas e bebidas típicas e amo quando meus irmãos se reúnem e minha mãe fica feliz e meus sobrinhos me mostram como estão enormes e lindos e inteligentes.

No finalzinho de 2016, tive comigo um marido. Logo eu, que sempre disse que nunca me casaria. Nesse ano, esteve comigo o homem mais incrível que já conheci, e que me faz rir e me ensina coisas novas todos os dias; o homem que faz comida para eu levar para o trabalho e com quem eu azedei pepino há algumas semanas, pela primeira vez na vida.

No último ano, lá no terceiro mês dele, eu tive um AVC e quase morri de medo. Depois, quando vi que não morri, perdi o medo de muita coisa. Fui para São Paulo rever amigos queridos, fui para o Rio de Janeiro ser fotografada sem roupa pelo fantástico Jorge Bispo, fui para Prudentópolis, na casa do meu pai, onde eu não pisava há muito, muito tempo. No último ano eu fui; segui o fluxo.

E, de repente, por causa de uma carta e de uma mensagem, abri a porta para aquele menino que roubou meu coração quando eu tinha 14 anos. Mudei de casa e, para o espanto geral da nação, fui morar com esse moço e com ele me casei em pouquíssimo tempo. “Mas não é cedo demais?”, me perguntaram – não, não é. Quando a gente deixa as coisas seguirem seu rumo natural, percebe que tudo acontece ao seu tempo, e eu esperei longos 15 anos para ter o Philipe ao meu lado. Foi de repente, mas não foi cedo.

Agora eu me pego fazendo planos, pensando em nomes de filhos, comprando coisas para fazer comida polaca, aprendendo a beber cachaça, conhecendo pessoas novas e, o melhor de tudo: dormindo com alguém que me abraça todas as noites e diz que me ama mil vezes ao dia.

Passamos juntos a última virada de ano, só nós dois, felizes da vida, em um hotel charmoso aqui de Curitiba. No ano retrasado, comprei uma Chandon tradicional – neste último ano, escolhemos a versão Rosé. No ano retrasado, fiquei sozinha à meia-noite, e foi uma experiência fantástica. Neste ano, tive a melhor companhia possível – a companhia que me fez ver que as coisas às vezes atropelam a gente e acontecem de forma maluca, mas nem por isso errada.

É diferente e divertido fazer planos em dupla, e a gente já tem alguns para este 2017 sem porteira. Se darão certo ou não, não tem como saber – e também o conhecimento com antecedência eu dispenso: se tem uma coisa que a vida me ensinou é que surpresas podem ser boas, que em um ano tudo pode mudar, e que mudanças fazem bem. Vida é movimento.

O Caso da Família Feliz

Há algum tempo eu e ele moramos juntos. O cafofo é um apartamento pequeno, aconchegante e que fica em uma região com cara de bairro, sabe, sem barulhos de carros e ônibus e afins. Os barulhos que ouvimos, no entanto, são dos passarinhos e dos vizinhos.

Na casa imensa do terreno ao lado do prédio onde moramos, do outro lado do muro, há a Família Feliz. O apelido foi dado por nós em algum momento de ódio e, justamente por isso, acabou pegando.

A Família Feliz tem várias crianças, que saltitam, riem, se divertem e brincam com seus pais que, mesmo depois de um dia longo de trabalho, têm disposição de sobra para se curtir a vida adoidado ao lado dos filhos.

Festa de aniversário de criança numa segunda-feira à noite, com direito a gente berrando no microfone? Tem. Barulho de champanhe sendo estourado em plena terça-feira, na maior cara de pau? Lógico que tem, até porque a Família Feliz é do tipo que comemora a vida – evidente.

Futebol em dias de Sol? Uhum. Mais uma festa para vários convidados com menos de dez dias de diferença entre a fatídica festa de segunda-feira à noite para uma criança? Mas é claro! Música tema de “A Bela e a Fera” tocando sem parar enquanto todos se divertem e celebram a vida? Obviamente.

Teve um dia – juro – que o céu ficou nublado o tempo todo. No momento em que ouvimos as primeiras risadas e conversas bem-aventuradas da Família Feliz, APARECEU O SOL. Daí veio a nossa suspeita de que, no jardim de alegrias desses nossos vizinhos animados, havia, também, um Sol particular.

Na nossa rotina normal estava eu de TPM, o Philipe com dor nas costas. O ódio do final do mês ou de uma segunda-feira de manhã e eles lá: EXTREMAMENTE FELIZES.

Passamos a desenvolver, então, teorias sobre a vida pessoal dessa gente toda. O casal tinha, no mínimo, quatro filhos. “A vida sexual deles deve ser uma merda”, eu falei um dia, rabugenta e com ódio no coração. “Certeza que ele tem um caso com a secretária”, completou, compreensivo, o Philipe.

E assim passamos dias, semanas de nossas vidas: refletindo sobre a vida da Família Feliz. Cheguei a falar deles na hora do café no trabalho, inclusive. Aquele comercial de margarina ambulante realmente afetou as nossas vidas.

Ontem, por fim, descobri a verdade sobre a Família Feliz. Em resumo, ela não existe. Rindo, Philipe me contou o que descobriu com a síndica do nosso prédio: do outro lado do muro não existe uma casa familiar, mas sim um espaço que é geralmente alugado para eventos infantis. Mistério resolvido. “Isso rende uma crônica, amor”, ele me disse. De fato, a vida é uma piada e ninguém poderia ser feliz daquele jeito. Que alegria.

Segunda-feira, segundo plano, terceira pessoa

Apesar de ter dormido bem, não acordei legal. Do primeiro abrir de olhos à batata-doce colocada no prato na hora do almoço me acompanhou o frio na barriga e o aperto na garganta. Eu, que raramente choro, que choro quase nada perto do que já chorei um dia; eu, descrente em fé e em humanidade; cética em termos de amor, bondade e justiça; cínica, metida a besta, preferindo sempre a minha própria companhia. Eu. Esse mesmo eu hoje acordou com o estômago transbordando borboletas amarelas e flores secas.

Meus olhos choveram mais do que o previsto para todo o mês de julho, e o coração teima em bater no ritmo de uma saudade que, de tão recente, nem deveria causar tamanho sufocamento.

Todo verbo intransitivo esconde suas armadilhas, e não precisar de complemento não significa ser livre. Livre mesmo ninguém está. Perguntaram se tem alguma coisa errada: – dormi mal, falei. Mentira. Eu dormi foi é muito bem. Descontentamento é coisa de gente acordada.

Chega de ímãs

Lembro até hoje do dia em que comprei aqueles ímãs de geladeira engraçadões, em 2012, quando morava em Balneário Camboriú. Lembro também de começar a gostar de ímãs de geladeira quando me mudei para Curitiba, em 2006. Em Dublin, em 2011, aproveitei uma promoção da loja da Hallmark e comprei uns 10. Enchia as geladeiras. Em Balneário e já de volta em Curitiba, intercalava os ímãs com cartões postais e coisas como o cardápio do des Deux Moulins, que eu roubei.

Faz uma semana que mudei de endereço mais uma vez. Arrumei as roupas, guardei sapatos, criei sequências que só eu entendo de vidros de perfume, organizei as bolsas, os livros, as panelas, os copos. E os ímãs. Coloquei os ímãs na geladeira nova, olhei para ela e não gostei. De repente, assim, de uma hora para a outra, eu deixei de gostar dos meus ímãs. Não é estranho?

Ficaram todos na geladeira por alguns dias até que não me aguentei e tirei os que já definitivamente não gosto mais. Guardei numa latinha dessas que a gente tem para guardar coisas que nem se deveria ter. Deixei lá. Na porta da geladeira, ficaram uns de lugares que visitei. Deu dó de tirá-los de lá assim, de sopetão, mas, pelo que estou entendendo, ficarão cada vez menos deles expostos na porta da caixa branca na qual guardamos tudo aquilo que eventualmente apodrece.

Algo estranho está acontecendo comigo. Ontem me vi limpando o chão do banheiro, de joelhos à noite, com a vontade de deixar aquele chão branquinho sempre, sempre, sempre branquinho.

Passei a vida fazendo cara feia para azeite de oliva. Já cheguei a passar mal quando comi sem querer, em alguma salada qualquer. Nunca, na vida, eu usei tempero em salada – né, mãe? Sem sal, sem azeite, sem limão, sem vinagre. De repente, me lambuzo com azeite de oliva com gosto todo santo dia. Aliás, eu como folhas verdes, beterraba, berinjela, cenoura e palmito. TODO DIA. COM AZEITE DE OLIVA. A verdade é que eu cheguei a comprar azeite de oliva e agora tenho em casa, assim, para o meu bel prazer. Com empadão de massa de iogurte fica sensacional. E não vou nem começar a falar do vinagre balsâmico, que aquilo é um negócio que deveria ter em filtros tipo esses de água. E eu sempre fiz cara feia para vinagre também. De qualquer tipo. O sal eu continuo dispensando.

Aprendi a beber uísque também. Uísque, não. Bourbon, ele diria.

Gastei dinheiro, meu dinheiro, com tapetes de banheiro e suporte para xampu e condicionador. Passo horas e mais horas de qualquer domingo à toa fuçando coisas em lojas como Leroy Merlin e Tok & Stok. Tenho usado anéis, correntinhas e brincos dourados, coisa que até um ano atrás nunca tinha feito. Hoje cedo passei rímel. Nesse ano até AVC eu tive.

Acabei de fazer 29 anos de mudança. Vinte e nove fucking anos. Não é muito, mas também não é pouco. Quero coisas cada vez maiores e mais diferentes. Passei o dia ouvindo Chet Faker, que até hoje cedo eu nem sabia que existia. Bonita voz, som meio malucão, letras legais. Ótima barba. Australiano.

Faz três meses também que tirei do território platônico um ser humano que a cada dia se revela um dos meus personagens favoritos do mundo. Ele é mais complexo que o universo inteiro, e se tem uma coisa que eu gosto nessa vida é de complexidade. Complexidade, sim; ímãs de geladeira, não.

Se a gente reparar bem, felicidade tem sempre a ver com mudança. De repente, o segredo é se mudar, de todas as formas possíveis. Mudar de endereço, de idade, de pele, de decoração, de amor, de universo, de música, de bebida favorita. De vida.

O urso continua aqui

Descobri uma coisa óbvia fazendo terapia. É engraçado dizer isso, porque a maioria das descobertas sobre nós mesmos são óbvias. A obviedade, apesar de ser tão clara por definição, é realmente difícil de ser enxergada.

A coisa mais óbvia que descobri foi que a infância de cada pessoa, de realmente cada pessoa nesse mundo, é uma espécie de primeira tatuagem que a gente faz. Às vezes o desenho é bom e você tatua logo de cara um jardim colorido e cheio de borboletas e passarinhos; às vezes o desenho é bizarro e a tatuagem que fica é a de um urso de pelúcia velho e sujo, sem olhos nem orelhas; e às vezes a coisa é tão errada que não é sequer um desenho, mas apenas um conjunto de cicatrizes doloridas. O fato é que, por toda a vida, teremos essa tatuagem.

Acho que sempre tive como tatuagem de infância o urso de pelúcia fodido, e me peguei falando à Rita sobre episódios que nem eu mesma lembrava. Desde as voltas que dava na moto do meu pai logo depois de ele voltar do trabalho até o fato de ser a eterna caçula, coisa que eu sempre odiei. Mas aí lembro que minha irmã mais velha odeia/odiava ser a mais velha também.

Teve a separação dos pais, tiveram os padrastos e madrastas, os traumas infinitos no ensino fundamental e no médio. O primeiro amor, o segundo amor, o milésimo oitavo amor. O amor eterno.

Acho legal o fato de as sessões começarem sempre sem seguir um plano. Apesar de eu ser organizada – exceto pelo meu quarto, óbvio – e de gostar de coisas no lugar, de programar tudo e de seguir uma pontualidade quase doentia, não gosto de roteiros de conversas. Nem de simetria. Nem de pompa e formalidades. Não gosto de muitas regras e só sigo as que garantem que eu não vá presa, perca meu emprego ou, claro, exceda algum limite do convívio em sociedade.

Esses dias reencontrei uma das pessoas que eu mais amo nessa vida, e uma das que mais combina com as minhas imperfeições e com meu gosto pelo que não é necessariamente certo. Ele é do tipo que segue regras, no entanto, e eu disse logo de cara que o vinho que beberíamos estava gelado, afinal o calor estava demais. “Não tem problema”, disse ele, mesmo eu achando que para ele poderia, sim, ser errado beber um vinho tirado da geladeira e não de uma adega. Curioso.

Das coisas que me marcaram na infância certamente ficou a necessidade bizarra de agradar, de servir e de me colocar a postos, coisa que fiz sempre. Por sentir que era a “falha da tabelinha”, que não era amada, que não era bonita – mesmo que muitas dessas sensações tivessem vindo de suposições minhas e não de coisas que vi ou ouvi. Por me achar pequena eu queria me fazer presente e cresci aprendendo a agradar. Por isso agradei – meu Deus! – como eu agradei.

Sempre fui do tipo que deixa um bilhete, que compra um negocinho, que manda uma música, que escreve uma carta, que se dispõe a ouvir por horas e horas a fio. Se meus amigos ou familiares me chamavam, eu ia correndo, pegava táxi, pegava ônibus, ia a pé, mas ia. Eu sempre estive presente.

Não há absolutamente nada errado em estar presente ou em fazer agrados, que fique claro. Errado é acostumar aqueles do nosso convívio com essa presença e dedicação constantes a ponto de que, quando elas não estiverem garantidas, você seja cobrada e/ou se sinta culpada.

O ano passado, especialmente, foi de culpa. A gente vai desamarrando um nó ou outro e vai sentindo como se estivesse batendo em uma criança indefesa. Perde o sono, até. Culpa é um sentimento ingrato, especialmente quando não tem uma razão evidente de existência.

Depois da culpa, vem a raiva. Porque a verdade é que ninguém tem culpa por nada, não nesse novelo todo que tenho desenrolado. Nem eu por achar que não era amada, nem meu pai por ter ido embora. E aí dá raiva de todo o tempo perdido e de todas as caraminholas que alimentaram minha cabeça ao longo dos últimos anos. Dá até um pouco de raiva das pessoas e das reações de submissão que já tive por causa delas – e de mim.

Ainda assim, raiva é mil vezes melhor que culpa. Culpa fica do lado de dentro, e a raiva, do lado de fora. Quanto mais coisas do lado de fora, melhor.

Durante muito tempo me preocupei mais com o que pensavam a meu respeito do que com o que eu realmente queria de e para mim, e fui olhando apenas para a tatuagem do urso sujo que imperava em meu peito. Sempre de cabeça baixa em direção a ela. Sempre.

A terapia tem essa função maravilhosa de fazer com que uma pessoa olhe para dentro de si mesma, ainda que isso seja absolutamente assustador. Olhar para dentro de si, que é ir muito além de apenas enxergar o urso, é como olhar o fundo do poço bem pela beirada, com os pés suspensos do chão e em meio a uma ventania. Dá medo, mas como diria a Rita, que bom que dá medo. Estranho seria se não desse.

Depois de tudo isso, de todo esse processo, senti, especialmente no último ano contando até o momento presente, uma vontade absurda de ficar sozinha por uns tempos. A surpresa melhor foi descobrir que adoro a minha companhia, e ultimamente não a troco assim tão fácil.

Sozinha, volto para beira do poço e fico procurando reflexos novos lá dentro. Como já estou familiarizada com o ambiente, ouso dizer que o medo é muito menor e que a sensação de descobrir pequenas coisas novas a cada dia é fantástica e libertadora.

A culpa foi embora, mas quem vai embora às vezes volta fazer visita, e não há como negar que, de vez em quando, eu me sinto culpada por algumas coisas. A raiva, assim como a culpa, não mora mais comigo nem se alimenta da minha úlcera. Ela me visita também e, quando vem, nem sempre consigo controlar o estrago que faz, mas com certeza sei expulsá-la antes que fique para passar muito tempo. Não adianta: uma pessoa completa – que é o que quero e preciso ser – conhece o céu e o inferno. Esperar apenas calmaria é ilusão, e se essa calma toda chegasse, certamente não seria com ela que eu me sentiria feliz.

Hoje, em mais uma sessão de Rita, ouvi da sua boca o que eu mesma já disse tantas vezes: vida é movimento, é falta de controle. Ainda não decidi se quero apagar o urso velho que tenho desenhado em mim ou se quero aprender a gostar dele, mas o que importa é que essa tatuagem tem me incomodado menos, minha cabeça tem ficado cada vez menos abaixada e eu tenho aprendido algo fundamental: descobrir o óbvio não é fácil, mas é realmente necessário.

Não era meiguice, era medo

Cresci e me formei como ser humano ouvindo as mais diversas barbaridades. Por quê? Porque eu era gorda, oras. E, por nunca gostar de briga e conflito, ouvia tudo quieta. “Se um dia alguém namorar você, vai ser por dó” e “o problema de gente gorda é que gente gorda é porca e relaxada” são duas das frases que ouvi e que me remetem às situações exatas nas quais aconteceram.

Ok. Todo mundo sofre bullying de uma forma ou outra. Todo mundo tem algum problema de autoimagem etc. Só que nem sempre as pessoas fazem o link e percebem que a infância é uma fase de desenvolvimento e aprendizado. É um período de inocência, de fragilidade, e fazer com que uma pessoa se veja desde tão cedo como se fosse um saco de lixo é, no mínimo, cruel.

Com isso, aprendi a ficar quieta. Terminei o Ensino Médio sem ter a capacidade de fazer uma pergunta sequer durante uma aula. Ia pra casa com dúvida porque tinha pavor de que as pessoas olhassem para mim – sempre que olhavam, viam defeitos, então era melhor que não olhassem mesmo.

Uma vez uns babacas do Ensino Superior (sim, superior, universitário, teoricamente adultos) criaram um fotolog para falar mal das meninas do Ensino Médio. A primeira foto? Foi minha, é claro. Tiraram enquanto eu estava lendo na biblioteca, e fizeram uma publicação gigante, dizendo que eu era uma galinha com problemas hormonais, por isso era daquele tamanho.

Na infância e na adolescência ainda não temos confiança o suficiente para erguer a cabeça e mandar à merda todos os idiotas que, para reforçarem sua popularidade, masculinidade e autoconfiança precisam pisar na cabeça de alguém.

A minha base comportamental enquanto ser humano foi construída em cima da ideia de que ficar na minha era melhor decisão. E aí eu andava de cabeça baixa, com um medo ridículo de falar, de ser notada, de tudo. Mesmo entre os meus amigos mais próximos eu ainda tinha esse medo de falar, de me posicionar. Cresci acostumada a ouvir desaforo e a ficar quieta, para não comprar briga. Como detestava climas de brigas e como a maioria das pessoas geralmente reage na defensiva quando alguém discorda delas, eu sorria e acenava.

Acontece que de uns tempos pra cá – e estamos falando de bem pouco tempo mesmo – eu aprendi a me colocar acima desses sentimentos que me diminuíam. Tenho a noção de que, enquanto ser humano, não sou melhor do que ninguém – nem esse jamais foi o objetivo –, mas hoje tem duas coisas que não admito mais: ser manipulada e ficar quieta.

Não é fácil escolher palavras, e quando estamos irritados, é pior ainda. Mesmo assim, prefiro dizer o que sinto que devo a fazer algo que não quero só para agradar. Não nasci para agradar.

E, curiosamente, desde então tenho recebido críticas. “Você anda falando demais”, “você é egoísta”, “sinto falta da menina meiga que você já foi um dia”.

E, sabe, eu NUNCA fui meiga. Talvez por isso odeie tanto essa palavra, por chamarem de meiguice o que eu chamo de o resultado de anos de covardia e crueldade. Hoje, acho uma tristeza imensa que tios e professores, por exemplo, tenham interpretado como ternura o silêncio de uma criança. Deixa eu dizer uma coisa: se uma criança “se comporta” demais, provavelmente tem algo errado com ela.

Crianças são criaturas espontâneas por natureza. Se essa espontaneidade deixa de fazer parte do comportamento delas, possivelmente algo não vai bem, e elogiar esse momento é o mesmo que aplaudir a modelo por sua bela forma física sem saber que atrás daquela magreza existe a bulimia.

Então eu nunca fui meiga. Era quieta por medo de interagir, e não interagia porque sabia que mesmo aquelas crianças que brincavam comigo, mais cedo ou mais tarde, me diriam coisas horríveis.

Por muitos e muitos anos me torturei por me achar egoísta nesses momentos em que me posicionei e coloquei o meu bem-estar acima de alguma situação. Não sou, realmente, obrigada a fazer muitas coisas. E para mim, isso é novo, pois sempre fiz de tudo para agradar, então é normal que eu sinta uma quase culpa às vezes. Eu só não deixo mais que NINGUÉM se aproveite disso.

Hoje, adulta e com uma mentalidade bem diferente da que eu tinha antes, graças a algumas boas sessões de terapia, eu sei que não preciso agradar. Preciso respeitar, e isso eu faço desde sempre por uma questão de bom senso. Mas não preciso agradar. Não preciso fazer algo que eu não faria normalmente só para que alguém não faça beicinho ou só para ser “aceita”. Eu fui condicionada a ser essa pessoa na minha infância e na minha adolescência, e vi a merda que isso traz como consequência, então não me permito mais ser assim.

Penso a todo o momento se minhas atitudes vão prejudicar outras pessoas, da mesma forma que sempre tento me colocar no lugar dos outros. Nenhum desses exercícios, no entanto, me faz não cometer erros. Quando os cometo, adivinha só? Peço desculpas. E a vida segue. Eu só não sou mais a bobinha quietinha e “meiguinha”.

Esses dias, lendo um texto sobre gaslighting, escrito por um homem, me deparei com este trecho, que me ajuda a mostrar que a coisa é ainda mais complexa, principalmente com relação a quem tem achado ruim o fato de eu não ser mais tão passiva:

“As mulheres suportam o peso da nossa neurose. É muito mais fácil para nós colocar nossos fardos emocionais nos ombros de nossas esposas, amigas, namoradas e empregadas, do que é impô-los nos ombros dos homens.

Quer gaslaitear seja consciente ou não, produz o mesmo resultado: torna algumas mulheres emocionalmente mudas.

Essas mulheres não conseguem expressar com clareza para seus esposos que o que é dito ou feito a elas as machuca. Elas não conseguem dizer a seus chefes que esse comportamento é desrespeitoso e as impede de trabalhar melhor. Elas não conseguem dizer a seus parentes que, quando eles são críticos, estão fazendo mais mal do que bem.

Quando essas mulheres recebem qualquer tipo de reprimenda por suas reações, tendem a deixar passar, pensando, ‘Esqueça, tá tudo bem’.

Esse ‘esqueça’ não significa apenas deixar um pensamento de lado, é ignorar a si mesma. Me parte o coração.

Não é de se admirar que algumas mulheres sejam inconscientemente passivas agressivas ao expressarem raiva, tristeza ou frustração. Por anos, têm se sujeitado a tanto abuso que nem conseguem mais se expressar de um modo que seja autêntico para elas.

Elas dizem ‘sinto muito’ antes de darem sua opinião. Em um email ou mensagem de texto, colocam uma carinha feliz ao lado de uma questão ou preocupação séria, de modo a reduzir o impacto de expressarem seus verdadeiros sentimentos”.

Essa coisa de que não estamos acostumadas a nos expressar com clareza reflete muito uma questão social que vai beeeeeeeem além do nosso entendimento. Qualquer “opa, eu não acho que isso seja certo” é motivo para que, especialmente as mulheres, sejam chamadas de neuróticas. São cobranças enraizadas, que nos obrigam a entrar em um molde do que é socialmente aceitável. Por anos achei que MERECIA levar pauladas na cabeça por não ser uma menina magra. E, porque esse era o cenário ao qual eu tinha acesso, eu achava que aquelas pessoas estavam certas por me colocarem para baixo. Afinal era preocupação, né?

Só que não. Pelo amor da empatia, vão aprender o que significa “preocupação” antes de sair falando asneira.

Hoje, se eu encontrasse com o professor de educação física que me disse uma vez que tinha ódio de ter que treinar alunos gordos, eu saberia bem o que falar a ele. Na época eu era criança e senti MUITA raiva. De quem? De mim, é claro.

Então eu hoje não aceito que alguém me cobre por uma meiguice que nunca foi minha. O que algumas pessoas chamam de egoísmo eu chamo de uma liberdade deliciosa, que eu demorei mais de 20 anos para conhecer. Liberdade de ser quem eu sou, do jeito que sou e sem a menor intenção de fazer nada para agradar a ninguém.

Aqui vale explicar uma coisa que talvez não seja óbvia para todos: quando digo agradar, não estou falando da educação básica que um ser humano deve ter diante do outro. Se tem outra coisa que aprendi sendo gorda e, por consequência, mal vista por isso, foi a não tratar NINGUÉM de maneira desrespeitosa.

E, olha só que loucura, às vezes eu quero agradar. Quero agradar amigos, colegas de trabalho, gente da família, gatos e cachorros. De vez em quando, compro um bombom, mando o link de uma música, digo que gosto, agradeço por alguma ajuda. Isso tudo eu faço e sempre farei.

Demorou, doeu e eu ouvi muita merda no meio do caminho, mas ó: não tem nada melhor do que a gente aprender a gostar da gente mesma. Aquela imagem do espelho não é melhor nem pior do que qualquer outro reflexo. E eu adoro olhar para ela e ver que a “meiguice” deu lugar à força. Uma força que ninguém, ninguém mesmo, vai me tirar de novo. Uma força que me ensinou a desconfiar de quem acha que tem algum direito de me dizer como devo me comportar. A vida passa e a gente aprende. Eu aprendi a ser quem eu sou e confesso, sem medo nem meiguice: é uma delícia.

Sobre Neil Gaiman, Dona Natália e Vó Helena

Essa semana eu li um texto do Neil Gaiman. Ele e Amanda estão acompanhando um grande amigo que está morrendo. Acho que é por isso que eu gosto de escritores. E de escrita. Foi um texto curto e cheio de sentimento. Não induziu a raciocínio algum.

Penso que a palavra escrita tem efeitos diferentes em pessoas diferentes. E a interpretação de um texto depende sempre das experiências que a gente tem na vida. Com o texto do Gaiman me lembrei da minha vó, que eu não pude ver morrer. A tristeza por não conseguir vir ao velório dela me acompanhou, confesso, por um dia apenas.

Depois veio até mim um raciocínio que nunca mais deixei de lado: quando a gente demonstra amor, não importa como será a despedida. E a vida inteira eu amei a minha avó. Amo, ainda, que alguns verbos não deveriam ser conjugados no passado.

E estranhamente eu choro pouco por causa da minha avó. Sinto uma falta gigantesca, absurda, mas não me permito entristecer. Conheço poucas pessoas que moraram com seus avós, que dividiram cama e quarto com a avó, que conseguiam pegar a avó no colo para bancar a Felícia e enchê-la de beijos e abraços. E eu vivi tudo isso. Seria ingrato transformar uma experiência linda dessa em tristeza.

Por amar a minha avó com todas as forças do mundo, eu disse e mostrei isso para ela todos os dias. Nenhum amor deve ser escondido. E me assusta isso de sermos sempre tão reservados e comedidos, como se gostar, admirar ou amar fossem ações ruins. Não são. E não exigem reciprocidade. Eu amo o Neil Gaiman mesmo com a noção de que ele nem sabe que existo. A palavra escrita também gera amor.

É o mesmo com o amor fraternal ou romântico. Juro que não entendo os motivos para fingir que não existem ou medir as palavras mil vezes antes de quase dizer alguma coisa. O texto do Gaiman me lembrou disso hoje: as pessoas morrem, e mais do que estar ao lado delas no hospital, o que pode mesmo nos confortar depois é o amor que damos a vida inteira. É até uma espécie de egoísmo, mas funciona sem essa carga negativa quando o amor é verdadeiro, não obrigação.

Tenho pressa, sempre, de viver tudo o que acho que devo e posso. Muito dessa pressa vem da certeza que eu tenho da morte – não é medo, é só uma certeza. Pode ser amanhã ou depois ou daqui a 55 anos. Mas vai ser. O único medo que tenho com relação à morte é o de morrer sem ter dito alguma coisa e por isso, não raramente, essa minha boca que reclama tanto do receio das pessoas às vezes se escancara, sorri e diz que ama. Cada um que lide com suas caraminholas. As minhas me pedem pra expressar meus sentimentos, especialmente quando são bons.

No último sábado, mais uma avó resolveu ir embora. Morreu Dona Natália. Fazer amigos na casa dos 80 tem lá as suas desvantagens, mas as vantagens compensam tanto! Não estive presente também no velório dela. A presença maior foi quando ela estava aqui, viva e entendendo o quão cruel é ser abandonada nessa fase da vida.

Por imaginar o quanto isso deve ser horrível, eu a enchia de beijos e abraços. Dizia que a amava e que ela era a melhor avó do mundo. Quando eu não estava lá e sabia que minha mãe a visitaria, mandava beijos e sabia que ela me mandava outros. Geralmente em dobro. Da última vez, a mãe falou: “Dona Natália, a Daiana mandou mil beijos”, e ela respondeu: “Pois diga para ela que eu mandei dois mil”.

Até 2012 a gente nem se conhecia. E de 2012 pra cá eu aprendi a amar aquela mulher com todo o meu coração. Foi um encontro de amor recíproco, o que é uma sorte sem tamanho. Para ela, minha mãe era uma filha e eu, a neta. Além disso, ela sempre nos dizia que éramos suas únicas amigas.

Dona Natália me fez pensar sobre o final da vida, sobre as pessoas que passaram, mas que, depois dos problemas de saúde e da idade avançada, a esqueceram com uma conveniência assustadora, ainda que fossem família.

Ainda sinto a garganta apertada quando me lembro das conversas que eu tinha com ela, das histórias que ouvi, dos desabafos. Mas nada nem ninguém vai tirar de mim a alegria de saber que, nos últimos anos de uma vida esquecida pelos outros, ela teve a quem abraçar e com quem conversar e para quem fazer café e dar cafuné.

Me dizia que eu era doce, quando muito da doçura que ela via em mim era reflexo da ternura que vinha dela. Pessoas têm esse poder. Umas nos inspiram, outras nos fazem melhores, outras a gente quer amar, seja lá como for esse amor.

Hoje a Dona Natália virou lembrança, virou saudade, virou doçura, virou, dependendo da poesia de quem vê, uma estrela no céu, um grão de areia no universo, uma folha de outono. Virou amor. E das riquezas do mundo o amor me pareceu sempre a mais poderosa.

Um pouco sobre a sensação de emagrecer mais de 50 kg

Há exatos nove meses enfrentei o maior medo da minha vida e comecei o dia entrando em uma sala de cirurgia. Lá, inflaram minha barriga, diminuíram o tamanho do meu estômago e religaram o dito cujo ao intestino. Depois disso, tive um mês bem chato, com uma restrição alimentar fodida e um pouco de dor.

Voltar a comer alimentos sólidos foi lindo, porque depois de um mês de dieta líquida e pastosa, a gente sente falta de mastigar, ainda que eu nunca mais tenha sentido fome desde a cirurgia.

Foi a melhor decisão que tomei na vida. Cheguei a pesar 124 kg, o que me colocou na categoria de obesidade mórbida. Os níveis de triglicerídeos e essas coisas ruins dispararam e eu me via com dificuldades para fazer as coisas mais simples, como amarrar o cadarço dos meus tênis.

Em um dos muitos exames que fiz antes da cirurgia, descobri que meu metabolismo não era lento. Era lento pra caralho. E aí também tem o fato de que minha família é cheia de gente gorda, o que influi na coisa toda. E tem também o preconceito. Aquele que a gente vê nos olhos da pessoa que nos mede dos pés à cabeça, imaginando como pode, meu deus do céu, uma pessoa gorda existir assim, ao ar livre.

É uma par de coisas que a gente ouve, lê, vê, assiste e principalmente é uma par de coisas que a gente sente por ser gordo. O gordo é visto como uma pessoa preguiçosa e porca. É foda ser gordo e eu nunca tive estrutura emocional para isso. Com a saúde indo pelo ralo e depois de um histórico de 26 anos de efeito sanfona, resolvi recorrer à cirurgia e, nem sabia, tinha acabado de tomar a melhor decisão da minha vida.

Aí beleza. Vamos aos números, que a galera adora perguntar os números. 17 de junho de 2014: 124 kg. 17 de março de 2015: 73 kg. Pois é. Foram mais de 50 kg pro limbo já. E a vida mudou bastante.

Meu maior medo era o de sentir fome, o que não acontece. Não sinto vontade de comer em excesso também. Nem de comer porcaria, simplesmente porque sei que não devo. A redução de estômago é tipo um vigilantes do peso versão cirúrgica: pode comer de tudo, mas pouco.

Meus exames de sangue estão lindos, e as vitaminas estão todas comigo, então não tem essa de que a pessoa fica doente ou com cara de doente ou com jeito de doente.

Na prática, minha numeração de calça foi do 52 para 40 e agora eu sei como é entrar em um provador de roupas sem chorar. Aliás, o que será que falta pra galera que faz roupa entender que existe gordo no mundo e que o que eles dizem ser tamanho G não é tamanho G?

Ouço direto algumas frases que odeio. Tipo “nossa, agora vai ser fácil pegar geral”. Eis uma grande verdade: todo dia, quando chego em casa, tem uma fila de homens lindos me esperando com flores e vinho tinto. rs

Outra: “como você está bonita agora que emagreceu!”. Sei que é para ser um elogio e tal, mas é um saco ouvir esse reforço de que gente gorda não é bonita. Que coisa mais estúpida. Gente gorda é gorda. Gente magra é magra. E gente bonita é bonita para quem a acha bonita, afinal beleza é algo que não é padronizado, pelo menos não deveria ser.

Mais um clássico: “Agora já tá bom, pode parar de emagrecer”. Minha vontade é sempre responder “e desde quando devo fazer a SUA vontade?”. Mas, né. Melhor nem. Na real, eu vou emagrecer por dois anos e isso eu meio que não controlo. Talvez eu emagreça mais uns 25 kg e precise ganhar peso, no final das contas – sim, acontece. Minha meta é chegar aos 60 kg, a quem interessar possa.

Fora isso, são olhares e expressões diferentes. É muito homenzinho sendo mais c a v a l h e i r o e sorrindo mais depois de eu ter emagrecido, o que me dá um certo nojo.

A bariátrica me provou aquilo que eu já desconfiava: as pessoas têm realmente uma necessidade inexplicável de controlar a vida alheia, de querer saber os motivos, de querer dar palpite e, inclusive, de querer tirar alguma vantagem. Já ouvi também que optei por emagrecer do jeito mais fácil porque, sim, fazer uma cirurgia desse porte é realmente fácil mesmo. Só que jamais, né.

Eu hoje estou amando que minha calça 40 anda larguinha e acho fantástico não roncar mais durante o sono. É lindo, é incrível e é gratificante. Ser gordo não é sinônimo de ser desleixado ou porco, mas para mim tava comprometendo a saúde, que era um troço que eu não queria. Foi radical? Bastante, assim como quase tudo de melhor que fiz na vida. Recomendo a quem quiser fazer, mas admiro profundamente quem é gordo e não se permite ter uma qualidade de vida inferior por isso. Tamo junto. Só não vale ficar policiando o corpo do coleguinha. Se tem uma coisa que aprendi sendo gorda é o quão chato é essa “preocupação” com o outro.

Há nove meses eu estava chorosa, com dor, com medo, com pontos, com o efeito da anestesia me deixando tonta e enjoada. Há nove meses eu era gorda e só conseguia desejar que o tempo passasse logo. Sempre me pareceu absurda a ideia de perder tanto peso assim – ainda me assusto quando subo na balança, meio que não acreditanto, sabe?

O tempo passa, as coisas se ajeitam e os milagres acontecem. Mudou muita coisa. Só não mudou a minha cabeça, que continua achando injusta essa cobrança estética. Que se foda o ideal de corpo da moça na capa da revista. Ela é linda e mesmo assim a foto que tá ali passou por edição de imagem, para que fique “perfeita”.

O que eu mais aprendi emagrecendo foi não comparar meu corpo com o de ninguém. Não tenho bunda e tenho peitos imensos. Tenho estrias, celulite e flacidez. Tenho uma boca gigante e um nariz minúsculo. Meus dedos são curtinhos e o meu dedo mínimo parece de uma criança. Meu dente da frente é um pouco torto. Minha barriga tem cinco cicatrizes pequenas, da cirurgia. Meu corpo tem sete tatuagens. Meu cabelo é enrolado e tem frizz. E nada disso, hoje eu sei, tem que me deixar menos ou mais feliz.